terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ainda que não faça parte da geração do Mal do Século, Cruz e Sousa possuía aquela obsessão íntima pelo escuro, principalmente se em contraste com o claro.

Louco da imortal loucura, hoje celebramos os 148 de seu nascimento. Da aurora do nascimento à penumbra de sua morte, o poeta percorreu 37 anos em passos errantes, mas cheios de poesia e símbolos.

Hoje, pois, seria um bom dia (ou noite) para assistir ao curta-metragem da Maria Emília de Azevedo: Alva Paixão.

E, claro, ler ao menos um de seus escritos lapidados na fina arte do fin de siècle brasileiro.

Escárnio perfumado

Quando no enleio
De receber umas notícias tuas,
Vou-me ao correio,
Que é lá no fim da mais cruel das ruas,

Vendo tão fartas,
D'uma fartura que ninguém colige,
As mãos dos outros, de jornais e cartas
E as minhas, nuas - isso dói, me aflige...

E em tom de mofa,
Julgo que tudo me escarnece, apoda,
Ri, me apostrofa,

Pois fico só e cabisbaixo, inerme,
A noite andar-me na cabeça, em roda,
Mais humilhado que um mendigo, um verme...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Aristocratas de ontem e hoje

Quando saíram as primeiras críticas sobre "Leite derramado" de Chico Buarque, comumente li comparações com o texto de Machado de Assis.

As semelhanças do tom íntimo e pessoal com "Memórias Póstumas de Brás Cubas", bem como a narrativa em primeira pessoa que revê a própria vida propositadamente de forma desordenada podem até mesmo convidar à comparação, 'inda que os textos em si caminhem por vias inteiramente distintas.

Brás Cubas é o cínico bon vivant, irônico para com a vida, aquele que não perdoa coxa e bela, que reclama daquela que o amou durante quinze meses e onze contos de réis. Já Eulálio d'Assumpção regozija-se de seu passado nobre, condescendente com a história do país e com as tramas particulares que já lhe confundem a memória, a mente a lhe pregar peças constantemente - coisa que para um morto feito Cubas é praticamente impossível. Brás Cubas é um defunto autor, ciente do que viveu e de como percebeu o mundo; Eulálio é um enfermo centenário a lidar com o peso da idade e que sente particularmente os inglórios dias idos e vividos. Ambos, porém, são aristocratas que se inserem num mundo de aparências e pequenas vaidades, coisa "suptil" como o "p" d'Assumpção.

Não obstante a contemporaneidade de "Leite derramado", Chico Buarque também se aproveita de uma estrutura coloquial, posto que seu alterego literário está a falar com aqueles a seu redor, seja sua filha, as enfermeiras ou outros funcionários do hospital no qual se encontra.

Há uma distância entre Chico Buarque e Machado de Assis evidenciada nas épocas de seus escritos. "Memórias Póstumas de Brás Cubas" foi publicado em livro no ano de 1881, oito anos antes da Proclamação da República, quando o realismo despertava nas artes brasileiras. "Leite derramado" está mergulhado na mal chamada pós-modernidade, quando tudo se torna tão duvidoso quanto a memória vivida por um ancião.


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Faltou

Passou 2008, quando fizemos reverência aos 100 anos sem Machado de Assis, e ficou a impressão de que faltou uma impressão de um livro que trouxesse alguma novidade ou uma grande revelação. Ou talvez a obra do velho e bom Machadão seja mais objetiva do que nos querem fazer crer os sabichões de ocasião.

É porque quase todo mundo quer encontrar chifre em cabeça de burro, mesmo quando se aventuram no mundo das análises literárias.

Machado de Assis em uma foto rara, tirada por volta de 1907.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Dois autores em sintonia

Ernest Hemingway e Mark Twain são exímios autores de língua inglesa que possuem seus lugares definitivamente marcados na história da literatura mundial. Seus estilos se assemelham em determinados aspectos, sobretudo quando se descobre que Hemingway era um leitor contumaz de Twain e declaradamente confesso de que por este sofreu influências na sua escrita - o que não desmerece de forma alguma o resultado final de sua obra, pelo contrário, dignificando-a ainda mais.

Quando da análise do início do segundo capítulo de As aventuras de Tom Sawyer (Twain) em comparação com o texto de abertura do conto Idílio Alpino (Hemingway), fica nítida uma descrição melancólica e contemplativa tanto da natureza quanto dos seres humanos. A figura do homem entra em simbiose com o meio do qual faz parte: os movimentos de um não se dão sem os do outro.

No apontamento das diferenças (sutis, mas imprescindíveis para a caracterização do estilo de cada um) entre os dois autores, Ernest Hemingway é mais objetivo. As palavras utilizadas pelo Nobel de literatura estão devidamente colocadas em seus lugares precisos, sendo um vocábulo tão necessário quanto o texto completo. Desta forma, fica complicado retirar algo de um texto que mostra-se na sua forma final, na qual eventuais retoques são dispensáveis e inoportunos. A novela O Velho e o Mar possui muitos destas caracateristicas acima citadas, principalmente quanto ao quesito do texto enxuto e objetivo, quase como um formato jornalístico.

Mark Twain valoriza mais os pequenos detalhes, coloca meandros no seu texto. As particularidades dos lugares descritos permeiam suas linhas tornando-as robustas sem que se perca o fio da meada ou se deixe levar por floreios textuais inadequados e repetitivos.

Enfim, estes dois cânones literários utilizaram-se de ferramentas semelhantes para a construção de uma base autoral indiscutivelmente sólida. Entretanto, cada um soube ser único em si mesmo sem negar as influências. Afinal, o leitor sempre precede o autor.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Cronista

Luis Fernando Verissimo

sábado, 18 de julho de 2009

Outras do Sousa

Prêmio Cruz e Sousa de Literatura
Terceiro lugar na categoria nacional teve sua premiação anulada

10/07/2009 – O presidente da Comissão Julgadora do Prêmio Cruz e Sousa de Literatura, Péricles Prade, anunciou nesta sexta-feira (10), em Florianópolis, a desclassificação de um dos vencedores do prêmio. Terceiro lugar na categoria nacional, o romance “A Cor das Palavras”, do paulistano Ronaldo Antonelli, teve sua premiação anulada. Após receber denúncia, a comissão confirmou que parte da obra estava publicada no blog pessoal do autor. O acesso livre ao blog foi bloqueado poucos dias após a divulgação dos nomes dos trabalhos vencedores, realizada em 28 de junho.

A Comissão Julgadora, formada pelo escritor e professor Deonísio da Silva, pelo escritor, crítico de arte e presidente do Conselho Estadual de Cultura Péricles Prade, e pelo crítico literário e editor Carlos Appel, decidiu por unanimidade anular a premiação. Eles levaram em consideração o item 8 do edital do concurso, que exigia que as obras inscritas fossem rigorosamente inéditas. Segundo Péricles, os R$ 10 mil destinados ao terceiro colocado não serão transferidos para outro escritor, ficando o concurso apenas com o primeiro e segundo colocados na categoria nacional. Ele lembra que a comissão, além de escolher os seis romances vencedores, fez uma seleção de 20 obras que, devido a grande qualidade, foram indicadas para publicação. A divulgação dos nomes de seus autores, feita também no dia 28 de junho, fez com que o caráter de anonimato do concurso fosse encerrado, eliminando a possibilidade de seleção de um substituto para a terceira colocação dentro das regras do edital.

Promovido pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), a edição 2008-2009 do Cruz e Sousa selecionou os romances “O Senhor da Palavra”, de Ruy Reis Tapioca, e “Cruz do Campo”, de Abelardo da Costa Arantes Junior, que ficaram em primeiro lugar respectivamente na categoria nacional e na categoria catarinense, as obras “O Vestido Vermelho”, de Vera Lucia Gonçalves Moll, e “O Livro Perdido de Baroque Marina”, de Fernando José Karl, segundo lugar nacional e catarinense, e os romances “A Cor das Palavras”, de Ronaldo Antonelli (anulado), e “A Morte dos Deuses”, de Roy Warncke Ashton, terceiro lugar nacional e catarinense.

Esta foi a sétima edição da premiação, e previa a distribuição de R$ 160 mil entre os seis trabalhos selecionados. As inscrições ficaram abertas entre 21 de outubro de 2008 e 06 de abril de 2009, e eram específicas para romances rigorosamente inéditos, escritos em língua portuguesa por brasileiros. Um total de 626 obras foram inscritas, das quais 443 concorreram na categoria nacional e 183 na catarinense.

Os jurados tiveram que selecionar os três melhores trabalhos em cada uma das duas categorias. Na Nacional, foram destinados R$ 50 mil ao primeiro lugar, R$ 20 mil para o segundo e R$ 10 mil ao terceiro. Na categoria Catarinense, os mesmos valores: RS 50 mil para o primeiro lugar, R$ 20 mil ao segundo e R$ 10 mil para o terceiro. Além de receber o prêmio em dinheiro, os autores teriam suas obras publicadas, A entrega dos prêmios está prevista para ocorrer no mês de outubro de 2009, em Florianópolis.

Prêmio Cruz e Sousa de Literatura – Edição 2008-2009
VENCEDORES (prêmio em dinheiro mais publicação do romance)

Categoria Nacional
1° lugar – “O Senhor da Palavra”, de Ruy Reis Tapioca (Rio de Janeiro)
2° lugar – “O Vestido Vermelho”, de Vera Lucia Gonçalves Moll (Rio de Janeiro)
3° lugar – “A Cor das Palavras”, de Ronaldo Antonelli (São Paulo) (anulado)

Categoria Catarinense
1° lugar – “Cruz do Campo”, de Abelardo da Costa Arantes Junior (Florianópolis)
2° lugar – “O Livro Perdido de Baroque Marina”, de Fernando José Karl (São Bento do Sul)
3° lugar – “A Morte dos Deuses”, de Roy Warncke Ashton (Florianópolis)

> Fonte: Comunicação / FCC - Autor(a): Deluana Buss



quinta-feira, 9 de julho de 2009

Machado em outros idiomas

Sobremaneira interessante o ensaio de Susan Sontag no livro Questão de ênfase sobre Machado de Assis e Memórias Póstumas de Brás Cubas intitulado "Vidas póstumas: o caso de Machado de Assis".

Curioso saber que na edição para o inglês a obra do escritor brasileiro recebeu o "título despropositado e interferente de Epitaph of a small winner [Epitáfio de um pequeno vencedor]", conforme a citação da autora. Quiçá os editores estrangeiros tenham sido influenciados pelo provérbio Machadiana "Ao vencedor, as batatas".

Em todo o caso, a autora ainda comenta sobre o fato de Machado ser pouco conhecido fora de sua pátria e que é difícil para os latinos admitirem que o maior escritor abaixo da linha do Equador escreve em português e não em espanhol.

> Leitura de Lei:
Susan Sontag. Questão de ênfase - ensaios. Companhia das Letras, 2001.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Governo divulga vencedores do Prêmio Cruz e Sousa

Romances de Ruy Reis Tapioca e Abelardo da Costa Arantes Junior recebem prêmio principal

Os romances “O Senhor da Palavra”, de Ruy Reis Tapioca, e “Cruz do Campo”, de Abelardo da Costa Arantes Junior, foram os grandes vencedores da edição 2008-2009 do Prêmio Cruz e Sousa de Literatura, promovido pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC). Enquanto a obra de Ruy Reis Tapioca venceu na categoria nacional, a de Abelardo da Costa Arantes Junior foi a vencedora da categoria catarinense. Em segundo lugar ficaram as obras “O Vestido Vermelho”, de Vera Lucia Gonçalves Moll, e “O Livro Perdido de Baroque Marina”, de Fernando José Karl, respectivamente na categoria nacional e catarinense. E em terceiro lugar ficaram as obras “A Cor das Palavras”, de Ronaldo Antonelli, e “A Morte dos Deuses”, de Roy Warncke Ashton, também respectivamente na categoria nacional e catarinense.

Os nomes dos trabalhos vencedores foram divulgados no domingo, dia 28 de junho de 2009, às 15 horas, em Florianópolis, pelos membros da Comissão Julgadora, formada pelo escritor e professor Deonísio da Silva, pelo escritor, crítico de arte e presidente do Conselho Estadual de Cultura Péricles Prade, e pelo crítico literário e editor Carlos Appel. Além dos seis vencedores, que ganharão prêmio em dinheiro e serão publicadas, a comissão listou outros vinte trabalhos, que devido a qualidade foram recomendados para publicação.

O trabalho de seleção foi realizado ao longo dos últimos oito meses. Esta é a sétima edição da premiação, que distribuirá R$ 160 mil entre os seis trabalhos selecionados. As inscrições ficaram abertas entre 21 de outubro de 2008 e 6 de abril de 2009, e eram específicas para romances inéditos, escritos em língua portuguesa por brasileiros. Um total de 626 obras foram inscritas, das quais 443 concorrem na categoria nacional e 183 na catarinense.

Os jurados tiveram que selecionar os três melhores trabalhos em cada uma das duas categorias. Na Nacional, foram destinados R$ 50 mil ao primeiro lugar, R$ 20 mil para o segundo e R$ 10 mil ao terceiro. Na categoria Catarinense, os mesmos valores: RS 50 mil para o primeiro lugar, R$ 20 mil ao segundo e R$ 10 mil para o terceiro. A entrega dos prêmios deverá ocorrer no mês de outubro de 2009, em Florianópolis.

Além do prêmio em dinheiro, os seis trabalhos selecionados serão publicados e distribuídos nacionalmente. “Com esse prêmio, buscamos estimular a produção literária no Brasil e em Santa Catarina, além de incentivar a formação de leitores”, lembra a presidente da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), Anita Pires.

Os candidatos nascidos em Santa Catarina, bem como os residentes no Estado há no mínimo três anos, concorriam automaticamente nas duas categorias, nacional e catarinense, desde que tivessem escrito em cada uma das cópias, ao lado do título e do pseudônimo, a palavra "catarinense". Também foi possível inscrever mais de uma obra, bastando entregá-las separadamente, com inscrições exclusivas. Todos os romances deviam ser rigorosamente inéditos.

Mais informações: cruzesousa@fcc.sc.gov.br ou (48) 3953-2396.

Prêmio Cruz e Sousa de Literatura – Edição 2008-2009

VENCEDORES (prêmio em dinheiro mais publicação do romance)

Categoria Nacional

1° lugar – “O Senhor da Palavra”, de Ruy Reis Tapioca (Rio de Janeiro)
2° lugar – “O Vestido Vermelho”, de Vera Lucia Gonçalves Moll (Rio de Janeiro)
3° lugar – “A Cor das Palavras”, de Ronaldo Antonelli (São Paulo)

Categoria Catarinense

1° lugar – “Cruz do Campo”, de Abelardo da Costa Arantes Junior (Florianópolis)
2° lugar – “O Livro Perdido de Baroque Marina”, de Fernando José Karl (São Bento do Sul)
3° lugar – “A Morte dos Deuses”, de Roy Warncke Ashton (Florianópolis)


RECOMENDADOS pela Comissão Julgadora

“Juvenal”, de Gilson B. Rampazzo (São Paulo)
“A Paixão Insone”, de Ronaldo Monte de Almeida (João Pessoa / PB)
“O Testemunho segundo Martinho Cartago”, de André Zanetti Papaphilippakis (São Paulo)
“Perdeu, Playboy”, de Felipe Tazzo (Campinas / SP)
“Somos Todos Velhas Fotografias”, de Sérgio Idelano Alves Matos (Teresina / PI)
“O Círculo”, Miriam Halfim (Rio de Janeiro)
“A Dança das Paixões, Opus 15”, Esdras do Nascimento (Rio de Janeiro)
“Inventário da Sombra”, Álvaro Cardoso Gomes (São Sebastião / SP)
“Deixa ir o meu povo”, de Luzilá Gonçalves Ferreira (Recife / PE)
“Eu, Flavius Ropelius, Centurião Romano”, de Milton Osny Stinghen (Ponta Grossa / PR)
“Demosthenes, uma Herança Grega”, de Loreana Maria Constantino Valentini (São Paulo)
“A Ronda dos Infelizes”, de Alberto Coelho Gomes Costa (Ibirama / SC)
“O Show da Vida”, de Leandro Telles Franz (Florianópolis / SC)
“A Realidade e a Ficção”, de Kátia Rebello (Florianópolis / SC)
“Os Estranhos”, de Jaqueline de Mello (Joinville / SC)
“Desterro, Brasil”, de Amilcar Neves (Florianópolis / SC)
“Ladrão de Quadros”, de Mário Gentil Costa (Florianópolis / SC)
“Ódio”, de Álvaro de Jesus Pissuto (Florianópolis / SC)
“Querência”, de Rosangela Maria de Almeida Garcia (Florianópolis / SC)
“Diário Vazio”, de Rafael Leiras (Florianópolis / SC)


Fonte: Comunicação / Fundação Catarinense de Cultura - Autora: Deluana Buss


terça-feira, 19 de maio de 2009

Feira de livro, ou melhor, gibi

A venda de livros no Brasil muda de ano para ano. Às vezes, aumenta; noutras, diminui; depois aumenta duas vezes conscutivas, e assim vai sem nenhuma lógica.

Esta 2a. Feira Catarinense do Livro, que aconteceu no Largo da Alfândega em Florianópolis, foi a mais sofrível que vi em anos - incluindo aqui as várias feiras que ali acontecem.

Além de um espaço reduzido e de uma variedade quase nula, há qualquer coisa de não atrativo em se fazer uma feira no centro de uma cidade que morre culturalmente todas as noites e nos finais de semana (salvo sábado de manhã).

Pela primeira vez, de todas as feiras que fui, saí dessa sem comprar nenhum livro. O único que me chamou atenção - uma coletânea de contos alemães - estava com o preço errado devido a uma distração da funcionária.

Então, para não sair de mãos abanando, comprei dois gibis e dei a tarde por encerrada.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Uma Pessoa, Oito Porradas


 
Apenas um adendo na frase final: 
- No original, Pessoa escreveu "Tudo vale a pena se a alma não é pequena" e não a forma que o vocabulário popular definiu que é "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena".
Mesmo assim, essa idéia de livroclip é extremamente válida no sentido da popularização da literatura.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O verde de Druon

"Maurice Druon, autor de O menino do dedo verde, um dos grandes clássicos contemporâneos da literatura infanto-juvenil, faleceu nesta terça-feira, aos 91 anos. Seu mais famosos livro encantou gerações com uma fábula que trata de cidadania, ética e convívio social, e permanece atual há mais de três décadas, traduzido para dezenas de idiomas.
O autor nasceu em Paris, em 1918, mas suas raízes estão plantadas no Maranhão, lugar de seus antepassados. Ex-ministro da Cultura da França, era membro da Academia Francesa de Letras desde 1996. Dedicou-se ao ensaio, teatro e romance."

Recebida esta notícia hoje, não pude deixar de me lembrar da história lida alhures na adolescência, imaginando o clímax de um filme, literatura feito cena, quando as armas dos exércitos arremessam no ar plantas ao invés de flores, como um cantor ao final de uma apresentam que presenteia o público com seu agradecimento em forma de flor.


quarta-feira, 15 de abril de 2009

Machado de Assis

Um conto (quase) inédito e outras preciosidades

Por Adelto Gonçalves em 14/4/2009

Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés, de Mauro Rosso, 224 pp., Editora PUC-Rio/Edições Loyola, Rio de Janeiro/

Escrito por Machado de Assis (1839-1908) para a revista A Estação e publicado originalmente em seis folhetins (30 de julho, 15 e 30 de agosto, 15 e 30 de setembro e 15 de outubro de 1879), o conto Um para o outro foi dado como perdido por muitos especialistas. Sabia-se de sua existência, mas pesava contra a sua localização que não constasse do acervo de obras raras nem de manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que seria o local natural onde deveria estar. Jamais incluído em qualquer antologia ou em edição de volume, foi preciso um trabalho de investigação que levou mais de seis anos para que o professor e pesquisador literário Mauro Rosso o localizasse depois de quase 130 anos de "desaparecimento".

Foi no acervo pessoal de José Galante de Souza (1913-1986), professor, pesquisador e autor de obras fundamentais para a compreensão do pensamento machadiano, como Bibliografia de Machado de Assis e Fontes Para o Estudo de Machado de Assis, que Rosso encontrou o que procurava em meio a recortes, excertos, fragmentos e anotações variadas. Como pesquisador, Galante trabalhou para o Instituto Nacional do Livro e na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, o que explica por que seu acervo está lá, embora ainda em fase de organização.

Dessa maneira, Um para o outro encontra-se agora, finalmente, à disposição do público leitor, ao lado de outros textos de Machado de Assis que dormiam o sono solto dos arquivos cariocas, inclusive o primeiro publicado pelo autor, Três tesouros perdidos, localizados e reunidos após exaustiva investigação em Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés (Rio de Janeiro, PUC-Rio/São Paulo, Edições Loyola, 2008). Além do conto "desaparecido" e daquele que marca a estréia do autor, há mais dois de restrita ou esparsa publicação: Uma partida, nunca antes publicado na íntegra em coletâneas contemporâneas; e Bagatela, sobre o qual pairam dúvidas quanto a ser tradução de uma narrativa originalmente em francês ou criação machadiana.

As narrativas curtas de Machado de Assis, porém, constituem apenas a primeira parte do livro, depois de uma alentada introdução de 20 páginas do organizador. O segundo bloco reúne informações detalhadas sobre todos os 226 contos escritos pelo autor, numa inédita reconstrução bibliográfica da obra machadiana em matrizes-raisonnés. Em outras palavras: para quem desconhece, é preciso que se diga que raisonné, como explica Rosso, é a listagem descritiva e anotada da bibliografia de um ou vários autores, podendo organizar-se por áreas temáticas.

Os contos estão listados em ordem alfabética de seus respectivos títulos, o que permite um retrato completo, peça por peça, dos veículos e datas de publicação original e das sucessivas antologias e coletâneas, seqüenciado pela catalogação em ordem cronológica (ano de publicação original), por periódico (jornal, revista ou almanaque), por coletâneas e – documentação inédita, porque completa – por pseudônimos e as várias assinaturas utilizadas à exaustão por Machado de Assis.

Se, como observou no prefácio Eliana Yunes, ensaísta, crítica e professora de Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a grande contribuição do livro está nessa reconstrução do histórico bibliográfico dos contos machadianos consubstanciado nas matrizes-raisonnés, não se pode deixar de ressaltar que Rosso desenvolveu um trabalho de fôlego e paciência que revela um pesquisador extremamente dedicado e atento. E oferece subsídios para novos estudos sobre a evolução literária machadiana e seu desenvolvimento como criador de narrativas curtas ao longo de quase cinco décadas, ao mesmo tempo em que mostra textos importantes na produção machadiana que ainda não haviam sido levados em conta até aqui por estudiosos e especialistas.Sem contar que promove algumas correções, ao excluir, por exemplo, O sermão do diabo e A cena do cemitério do elenco de contos para defini-los como crônicas, além de advertir para a possibilidade de queMadalena, que sempre foi tido como conto, embora leve mais o jeito de novela, seja tradução de algum original em francês de autor não identificado. Já quanto aBagatela, para o investigador, os indícios são de que tenha saído mesmo da pena do chamado bruxo do Cosme Velho, embora já tenha sido apontado como tradução.

II

É claro que a maior atenção recai sobre Um para o outro, publicado em 1879, ano do auge da inflexão machadiana dentro de seu processo de evolução literária. É, porém, texto que se mantém no diapasão dos valores estético-literários do romantismo, tanto em sua forma como em sua estrutura, embora antecipe uma visão de mundo que Machado de Assis desenvolveria na maioria de seus contos e romances da fase realista: "a do conformismo dos amores não-realizados e a aceitação/submissão dos protagonistas ao destino que lhes fora traçado", como bem observa Rosso.

De assinalar é que a edição deste e dos demais contos vem acompanhada de notas de rodapé assinadas pelo compilador que são de extrema valia para a compreensão de alguns detalhes datados que ao leitor comum passariam despercebidos, tal a distância do tempo que nos separa dos acontecimentos subjacentes aos fatos narrados.

III

Para o segundo semestre de 2009, Rosso promete lançar pela Editora PUC-Rio/Edições Loyola Queda que as mulheres têm para os tolos: Machado de Assis, o subterfúgio, o feminino, a transcendência literária, em que sustenta ser uma criação original de Machado – "inspirada" na obra De l´amour des femmes pour les sots, do belga Victor Henaux, ao contrário do que garante Ana Cláudia Suariani da Silva, que estabeleceu o texto na edição publicada em 2008 pela editora da Unicamp.

É de notar que foi o pesquisador francês Jean Michel Massa, autor de A juventude de Machado de Assis - 1839-1870 (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971), tradução de Marco Aurélio de Moura Matos de sua tese de doutorado La jeunesse de Machado de Assis (1839-1870): essai de bibliographie intellectuelle (Université de Poitiers, 1969), quem, ultimamente, sugeriu que Machado não era autor de Queda que as mulheres têm para os tolos, embora o livro, publicado em 1861 pela Tipografia de F.Paula Brito, do Rio de Janeiro, deixasse claro na capa que se tratava de uma "traducção do snr. Machado de Assis", sem se dignar a apontar o nome do autor.

Para Rosso, Machado extraiu dessa obra tema e enfoque, mas construiu sua própria escrita. "Mesmo convicto de ser uma criação de Machado, não desprezo a hipótese de se tratar de uma tradução, tanto que discorro sobre a atividade tradutória de Machado e o quanto ele foi antecipador, precursor, inclusive, de modernos conceitos de teoria literária", adianta Rosso em mensagem a este articulista.

Para ele, que Queda que as mulheres têm para os tolos, seja ou não tradução, é o que menos importa. "O que vale ser considerado mesmo é, primeiro, sua própria textura – leve, gracioso, fluente, irônico, bem-humorado – e sua indefinição genética, sua não-identificação formal; depois, ter sido inspiração para muito do que viria a seguir, o modelo de uma teoria amorosa exercitada por Machado em Desencantos(1861), em Ressurreição (1872) e, finalmente, na opera-mater Dom Casmurro(1899)", diz.

Afirma Rosso que Queda que as mulheres têm para os tolos adquire representatividade especial e peculiar, pois serviu de inspiração a Machado para a escrita de sua primeira peça teatral, por cadeia, de seu primeiro romance, e, por fim, de sua obra definitiva e consagradora. "Todos esses textos têm por modelo essa teoria amorosa – traduzida ou não por Machado, em 1861; em todos eles, a ideologia da dúvida, da dubiedade, da incerteza, da ambigüidade; todos abordam a questão da escolha que a mulher deve fazer entre um homem de espírito e um homem sem juízo – que constitui um dos primordiais arcabouços dramatúrgicos e temáticos da ficção machadiana", acrescenta.

Para Rosso, tenha sido tradução ou não – em ambos os casos, manifesto eloqüente de criatividade de Machado –, Queda que as mulheres têm para os tolos "ultrapassa os limites de seu próprio significado histórico como obra debutante e reveladora para, estabelecendo elos e decorrências na atividade tradutória, na criação ficcional, na inspiração teatral, abrindo e fechando ciclos temáticos, oferecendo todas as possibilidades de análise, interpretação e reflexão, contextualizar-se na fértil e enorme seara da genialidade do autor como uma das expressões mais proeminentes de verdadeira transcendência literária".

A propósito do livro preparado por Ana Claudia Suriani para a editora da Unicamp, Rosso observa que, na verdade, não deveria ter levado aquele título, mas sim, Do amor das mulheres para os tolos, pois é este o título original da obra do belga Victor Hénaux. "Ao dar à obra o título machadiano, Suriani tem em mira comprovar que teria sido efetivamente uma tradução de Machado: Queda que as mulheres têm para os tolos é uma coisa, Do amor das mulheres para os tolos é outra", contesta.

IV

Mauro Rosso é professor e pesquisador de literatura brasileira, ensaísta, autor de Uma proposta para a prática pedagógica (2002); São Paulo, a cidade literária (2004); eCinco minutos e A Viuvinha, de José de Alencar, edição comentada (2005). Colaborou na coletânea Machado de Assis e a economia: o olhar oblíquo do acionista crônicas, organizada por Gustavo Franco (Brasília, Senado Federal, 2007). Atualmente, está empenhado na publicação pelo Senado Federal do primeiro dos três volumes da antologia Machado de Assis e a política: crônicas, que reunirá no total 384 textos.

> Fonte: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=533AZL001

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sonho de uma noite de Primavera

No livro “Sonho duma noite de S. João”, traduzido por Castilho, temos uma interessante explicação sobre a titulação da obra. A seguir, trechos da nota (escrita de facto por Victor Hugo) a qual o tradutor se utiliza para justificar a escolha do título:

“Midsummer não significa propriamente o meio do Estio. Não é um prazo incerto do ano.”
“Midsummer é um dia de festa, inteiramente britânico, marcado no calendário protestante no dia 24 de junho, isto é, no começo do Estio, correspondente ao S. João no calendário católico”.

“Muitos comentadores por desatentarem nesta explicação dada pelo próprio poeta, fantasiaram que por este título “Midsummer night’s dream”, quisera ele especificar o prazo em que o enredo da comédia se passava. A prova de que andaram errados neste juízo, é o cuidado com que o autor nos precaveu, por boca de um dos interlocutores, de que a acção se dá no começo de maio. Quando Teseu descobre na mata maravilhosa os quatro amantes por terra a dormir, diz a Egeu que certamente haviam de ter vindo celebrar o rito de Maio, e para isso madrugaram. Portanto, não é, como geralmente se cuida, numa noite de Estio, que Botom (Canelas) e Titânia se enamoraram; foi sim numa noite de Primavera”

> Leitura de Lei:
Sonho duma noite de S. João. Lello & Irmão - Editores. Lisboa, 1950.

quarta-feira, 4 de março de 2009

As personagens do bardo

Não há personagens de Shakespeare menos conhecidas; há pessoas que não conhecem Shakespeare.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As Carnes de Titus


Para quem não conhece, a tragédia Titus Andronicus de Shakespeare é uma verdadeira carnificina, daí a brincadeira da capa deste livro.

> Fonte da imagem: 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Esperança e Nostalgia

Uma forma divertida de pensar os relacionamentos entre artitas e suas obras é colocando-os em duas categorias distintas, faces opostas da mesma moeda: os nostálgicos e os esperançosos.

Aos nostálgicos convém a inequívoca sensação de um olhar para si, mesmo quando se trata de entender o pensamento alheio. Esta forma de expressão artística está fundamentada no que seriam registros de sentimentos perdidos. Como se fosse possível colocar numa obra de arte tudo aquilo que a memória guarda de mais interessante, independente dos valores pessoais e julgamentos mais simplistas como belo ou feio, sensível ou bruto, humano ou demasiado humano. A nostalgia, alguém já disse, é lembrar muito mais do que poderia ter sido e não daquilo que de fato a história guardou.

Já os artistas esperançosos avaliam que toda a existência até este momento é um ensaio para aquilo que nunca chegaremos a ser e, mesmo assim, têm plena convicção dos tempos vindouros como um objetivo a ser perseguido. As produções artísticas dos esperançosos constituem de um verdadeiro painel da diversidade social; são sofismas invertidos, realidades construídas com base numa não-existência futura sincronizada com os desejos presentes. A esperança é um bem inalienável, assim como a arte também o é para os artistas e seus admiradores.

Por mais distante que pareça, esperaça e nostalgia são tão próximas que é impossível determinar quando uma termina e a outra começa. E estes artistas nada mais são do que viajantes do tempo, interessados não noutra coisa além da própria humanidade.

> Imagem: Cena do filme "Nostalgia" de Andrei Tarkovsky.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Duas novelas de Laus

Quando um santo mágico aparece na praia ou quando um típico funcionário procura a verdade em relógios idênticos, Harry Laus (1922-1992) nos faz lembrar que há um sentimento de ausência que permeia todas as histórias humanas. Como o autor escreveu no dia 1 de Fevereiro de 1952 em suas Impressões de Vida (Bernúncia, 1998), "creio que chegará um ponto em que, à força de iludir e me iludir, não mais saberei quando estou sendo sincero". Em suas novelas essa impressão aparenta ser ainda maior tanto pelo desenvolvimento das personagens quanto pela condensação do espaço-tempo. 

As obras O Santo Mágico e As Horas de Zenão das Chagas, novelas cujas edições publicadas na década de 1980 serviram para a realização deste texto, não apenas exemplificam esses argumentos como também elevam à máxima potência um gênero literário que fica na crítica fronteira entre a primazia do romance e o caráter conciso do conto. À literatura, convenhamos, não apetece o título de ciência exata. 

Em sua incursão novelística quando o autor estava em Porto Belo, Harry Laus colocou personagens e lugares com esmerada descrição para contar o curioso caso de uma aparição na praia da cidade conhecida como O Santo Mágico (Edição do Autor, 1982). Já de início somos apresentados às personagens cujo destino em comum possui ligação com o misterioso clarão azulado que parece ter uma auréola sobre si. A fé talvez seja o questionamento central daquelas figuras literárias, como o pescador Luca (o primeiro a ver o fenômeno), o padre Anatole que se veste de maneira muito peculiar quando se encontra sozinho e o jovem Altair que encontrou a felicidade em Porto Belo junto a mulher e ao filho. E todos acabam por questionar suas próprias verdades mesmo que não se dêem conta disso. 

Publicada originalmente em 1957 no suplemento dominical do Jornal do Brasil, As Horas de Zenão das Chagas (Mercado Aberto, 1987), delimita a narrativa num espaço urbano, ainda que sua paisagem seja retratada sutilmente, mantendo essa insatisfação de uma vida semi-completa, tema tão caro aos mestres da escrita; do amor não-correspondido de Dante em Vida Nova às negativas finais da personagem-título de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. O desprendimento da realidade de Zenão é algo tão natural quanto os seus entediantes dias: "O desleixo em que mantém o quarto talvez resulte de certo comodismo que, de forma precária, substitui o conforto que não pode desfrutar". A história de Zenão situa-se numa região indefinida entre a parábola do cotidiano e a própria vida ordinária com a qual a maioria dos mortais se relaciona sem se dar conta. A personagem traz a inconformidade já em seu nome: O "Zé" que "não" é, ou mesmo aquele que não passa nem mesmo por homem comum. Não obstante, ainda há o sobrenome cujos sinônimos denotam extremo dissabor. 

Temos, pois, histórias talhadas em madeira de lei, ainda que com estilos diferentes que as naturezas dos enredos acabam por exigir. O Santo Mágico é uma história que se abre, larva que aos poucos se transforma em borboleta. Já As Horas de Zenão das Chagas é quase como um elevador que se fecha ante os olhares claustrofóbicos do leitor; uma história sobre o tempo passada em época indefinida. Borboleta ou elevador, as novelas de Laus irrefreavelmente sobem, com destino certo às alturas dos melhores prosadores brasileiros.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Como se fosse a primeira vez

A luz do Sol nos chega aqui na Terra depois de oito minutos viajando pelo cosmos, numa velocidade de 300.000 quilômetros por segundo. Se quase toda a vida na Terra depende da energia solar para existir, então temos de admitir que vivemos graças a uma energia passada ou, até mesmo, ultrapassada. Elaborando uma ligeira teoria, consideramos que o passado é, por si só, mais interessante que o presente.

Que seria de nós sem nossos antepassados? Por quais ladeiras, estradas ou highways atravessamos se não aquelas já fixadas em estações passadas? E é por isso que a história é uma disciplina tão atraente: olhando para trás, enxergamos a possibilidade de compreender não o que já existiu e nem mesmo aquilo que existe, mas sim como chegamos até aqui. Feito a Dorothy de O Mágico de Oz, o caminho a seguir, seja de tijolos amarelos ou não, é o que nos emociona.

Como se fosse a primeira vez que penso no passado, uma nítida sensação de nostalgia se faz presente, com o perdão do trocadilho. Valha-me o anjo das estações, senhor de todo o tempo, o peso dos que já foram como sendo a grande riqueza que nos legaram. Não me refiro aos seus bens, móveis ou imóveis, mas às palavras registradas nos livros, nas canções de amor e guerra, em cada fragmento de memória. Éramos felizes outrora e, sim, nós sabíamos disso mesmo que incoscientemente.

Entre lembranças e saudades do que não tivemos, revela-se sobremaneira o sentido de urgência de todos os pequenos momentos idos e vividos. Feito a sombra que persegue, o que ficou para trás também grudou àquela nossa ideia mais íntima, união perfeita dos verbos ser e ter. Da chuva inesperada quando estávamos arrumados para uma festa, passando pelas brincadeiras inventadas numa época em que a imaginação voava mais alto do que as contas no fim do mês, chegando até as juras de amor na madrugada de filmes ruins: tudo valeu a pena para as almas grandes.

E não há futuro?, perguntariam os descrentes da poesia histórica. Há, os sonhadores responderíamos em uníssono, mas tão somente para aqueles que ainda não nasceram, como um prêmio por terem chegado depois de tanta história passar.

* Publicado originalmente no jornal Notícias do Dia (12.12.2008).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A história nas entrelinhas

Existe uma visão-versão de estudos acadêmicos embasados em textos de literatura cujo objetivo é entender a história principalmente nas entrelinhas. Como fosse possível submergir temporalmente na época em que se passam os textos literários. 

Em meandros, não haveria divergência entre reconhecer, por exemplo, o Rio de Janeiro da belle époque seja através das análises e dissertações sobre o tema (incluindo aí toda documentação disponível da própria época) seja através de textos literários, como os contos, romances ou crônicas – para ficar apenas nos gêneros mais usuais – de um Machado de Assis.

Evidentemente, separar o joio do trigo no que concerne ao entendimento histórico não é qualquer coisa simples, feito uma leitura de entretenimento dessas disponíveis em bancas de revista (como o “Sol” de Sem lenço, sem documento do Caetano Veloso), ainda que tais magazines tenham a mesma importânia histórica naquela praia do debate cultural.

Dentre as leituras deste 2008 que já não mais há, duas das recentes dão conta do assunto destas mal traçadas. O livro 1808 (a), de Laurentino Gomes, é uma grande reportagem com rigorosa pesquisa de fontes sobre a chegada da família real no Brasil. Já O último dia de Cabeza de Vaca (b), de Fábio Campana, é uma ficção cuja narrativa se dá através das palavras do presbítero Francisco Paniágua, que teria estado com o navegador espanhol Don Álvar Núñez Cabeza de Vaca  em seus derradeiros dias, revendo seus feitos e malfeitos. As ideias de identificação histórico-narrativa se dão em ambos os volumes com aquela intenção de envolvimento historiografico.

Mudando de assunto
A curiosidade para os moradores da Ilha de Santa Catarina e/ou arredores está na presença da cidade em ambas as obras, escritas por não moradores do local e ambos paranaenses.

> Leituras de Lei:
(a) 1808. Laurentino Gomes. Editora Planeta, 2007.
(b) O último dia de Cabeza de Vaca. Fábio Campana. Travessa dos Editores, 2005.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Shakespeare romântico?

Primeiro, suponho, precisamos diferenciar o que é dramaturgia e o que é romantismo. Aquela é todo escrito para teatro, enquanto este vem a ser um estilo literário de um determinado período (ainda que esses períodos literários não sejam tão claros como quando os estudamos para o vestibular).

Em segundo, apesar dos sentimentos românticos nos textos de William Shakespeare serem tratados com esmero, o mesmo pode ser dito em pró de outros elementos, como os filosóficos, os dramáticos, os históricos, etc...

Ainda que o bardo não seja considerado um autor romântico como pede o figurino (aqui um jogo de palavras proposital para com o teatro), vale comentar que os românticos se inspiraram largamente em Shakespeare para escrever suas histórias. É muito comum a citação de Romeu & Julieta, principalmente, em trechos de poesias ou capítulos de romances.

Além disso, os românticos são responsáveis (claro que não isoladamente) por um reavivamento dos textos de Shakespeare. Trocando em miúdos, talvez seja no romantismo que Sir William seja definitivamente colocado como clássico!